Visitas Obrigatórias:
- Parece que o Alzheimer da minha avó (93 anos) faz com que ela, às vezes, já não reconheça a minha mãe. - diz-me a minha mulher, assim que desliga o telefone.
- E isso é bom.....ou é mau? - pergunto-lhe, sinceramente indeciso.
À noite na cama:
- És feliz? - pergunta-me ela, exactamente no momento em que me preparava para a seduzir.
- Queres a versão Capitalista, Humanista, ou Espiritual? - digo, enquanto, no meio de um suspiro, volto para o meu canto da cama.
- Acho que a mim, falta deixar de me preocupar tanto com a nossa filha. - diz, com um suspiro.
- Acho que te preocupas tanto, como uma mãe normal. Tens as tuas porras, mas no geral, não vejo grandes exageros. - digo, chegando-me a ela.
- Não concordo. Preocupa-me tudo. Se brinco com ela o suficiente, se tenho tempo para ela que chegue, se falo com ela o que ela precisa, etc..
- Amor! - reparem na minha total empatia com a sua preocupação... - Deixa-te de merdas! Quanto mais pensares nisso, mais condicionada te vais sentir. Faz apenas o que achas que deves fazer, e pronto! A moça é feliz e tu és uma excelente mãe. Ás vezes um pouco chata, mas isso é normal numa mãe.
- Pois! Mas é isso mesmo... Preocupo-me demais!
- Ok. Vamos lá então falar a sério. Pelo meu ponto de vista, é normal as mães preocuparem-se mais, do que os pais. Por mais que me custe admitir e dizê-lo, o facto de os filhos passarem 9 meses dentro de vocês, cria laços que nós homens, nunca poderemos sentir. Há uma ligação especial que as mães vão sentir para o resto das suas vidas, a que nós homens nunca poderemos aspirar. Pelo que, acho perfeitamente normal te preocupares mais do que eu, com a moça.
(pausa, com um ligeiro suspiro de alívio, da parte dela)
- Depois disto que eu disse, mereço sexo, não mereço? - pergunto-lhe.
- Não! Ainda não estou bem...
Abraço-a e digo-lhe:
- Amor. Para sermos felizes, temos que viver um sorriso de cada vez.
Ela abraça-me e solta mais um suspiro.
- Então e agora? - volto a insistir.
- Não. Hoje não me apetece.
- Está bem. - digo enquanto volto para o meu canto - Eu aceito o que a vida me dá! Tento. Insisto. Teimo. Mas aceito os nãos. Não fico a pensar neles muito tempo. Deixo as coisas andar. Sei que bastará um dia, uma hora, ou até um pequeno momento, para que o teu desejo por mim volte, e quando isso acontecer, sei que te vou fazer esquecer todas essas preocupações e simplesmente vais, mais uma vez, ver o brilho que tens dentro de ti.
E assim, meus caros, o dinheiro que certa dia gastei, em propinas, quando resolvi inscrever-me no 1º ano de um curso superior em Psicologia, continua a ser amortizado.
No dia dos anos da minha mulher:
- Toma, e muitos parabéns. - digo-lhe, ao mesmo tempo que lhe passo um embrulho para as mãos e lhe dou um beijo.
- Ó amor. Não era preciso. - diz ela, usando aquela hipocrisia habitual das mulheres, nestas ocasiões. - O que é isto?! Um jogo?! Mas...um jogo de consola?! É esta a minha prenda de anos?! - reage ela, de uma forma nada adequada ao tal "Ó amor. Não era preciso."
- Calma. Repara bem que jogo é esse. Tens-te queixado que andas com trabalho a mais, que não tens tempo para descontrair e que gostavas de aprender Yoga. Pois este não é um jogo qualquer. É o Wii Fit, o qual, para além de te permitir fazer diversos exercícios de "fitness", também te mostra e ensina, de forma interactiva, a fazer Yoga.
- A sério? - diz ela mais calma, enquanto vai olhando para a caixa do jogo.
- Sim. Confia em mim. Permite-te ainda acompanhar a tua evolução ao longo dos exercícios, e até te ensina a respirar enquanto os fazes. É muito interactivo devido a esta espécie de almofada, que vai controlando o que vais fazendo, e transmitindo isso para a consola. Acredita em mim! Com este jogo vais finalmente fazer aquilo que querias: aprender a fazer Yoga.
- Ó amor! Que querido! Adoro-te! - termina ela, com um merecido beijo à minha pessoa.
Mais tarde:
- Amor! - chama-me ela - Anda-me ajudar a montar isto. Não consigo pôr isto a funcionar na nossa consola (Playstation1).
- Pois. Esqueci-me de te dizer. Esse jogo só funciona numa consola que se chama Wii. Lembras-te de ontem, te teres queixado do dinheiro que poupaste, por este ano não teres tido tempo para ires aos saldos? Agora já tens onde o gastar.
E, mais uma vez, aquele que é o meu principal objectivo nos aniversários da minha mulher (surpreendê-la com as minhas fantásticas prendas) foi totalmente atingido. Além de que bati o anterior recorde (e por larga margem) dos minutos em que ela ficou paralisada, de boca aberta, e de olhos fixos, a olhar para mim.
Durante o jantar e enquanto ouvíamos o CD “Filhos da Madrugada”:
- Não percebo nada do que eles dizem nas músicas. – queixa-se a nossa filha, com o cotovelo em cima da mesa e a mão a apoiar a cabeça, enquanto com a outra vai mexendo a sopa com a colher.
- O senhor que escreveu as letras da música não podia, na altura, escrever o que queria, então escrevia através do que se chama de metáforas. – responde a minha mulher – E já agora, senta-te como deve ser e come a sopa!
- Pai, o que é uma metáfora? – pergunta-me, após um longo suspiro.
- Vou-te dar um exemplo: Quando a mãe resolveu descongelar a sopa, que ela fez há uns meses, e nos obriga a comê-la, está a dizer-nos, de outra forma, que não gostou nada que o pai tivesse trazido uma piza para o jantar. Isso é uma metáfora: Dizer as coisas que pensamos, mas de outras formas.– respondo.
- A mão só te obriga porque gosta de ti, pois a sopa faz-te bem. Ajuda a estimular o cérebro. – diz-lhe a minha mulher.
- Já percebi. – diz a nossa filha, dirigindo-se a mim - É que acontece quando tu fazes exercício e logo a seguir vais comer chocolates. Estás a querer dizer que não vais emagrecer. – diz, com um sorriso, que me pareceu demasiado desrespeitador, para com um educador do meu calibre.
- É seres obrigada a comer a sopa e, ao mesmo tempo, dizerem que gostam de ti.
(pausa, aproveitada pela minha mulher para me enviar à cabeça um pedaço de pão)
- Mas continuo a não perceber o que eles cantam. Acho que quem escreveu estas músicas, escrevia o que lhe vinha à cabeça e depois chamou-lhe matáfora. – insiste a nossa filha, continuando a mexer a sopa com a colher. – Conheço um menino que não consegue ler bem. Troca as palavras e não se percebe nada, quando está a ler. A professora diz que é dizpéxico. Se calhar o senhor que escreveu as músicas, também tinha esse problema.
- Mas por que raio é que ela já não come mais sopa? – grita a minha mulher comigo, quando me vê a tirar o prato de sopa, da frente da nossa filha.
- Porque quem apresenta teorias com esta lógica, não necessita da tua sopa para estimular o cérebro.