Visitas Obrigatórias:
- Então sogra! Sempre vem passar o ano connosco? – digo assim que atendo o telefone.
- Sim. – responde ela, secamente. - Quero falar com a minha filha.
- Ela não está. Saiu para tentar comprar lixívia. – digo, ao mesmo tempo que se acende uma luzinha na minha cabeça. – Por falar nisso. Ainda usa daquelas máscaras contra o pó, quando faz limpeza?
- Claro! Mas porquê? – pergunta-me, já com alguma curiosidade.
- Queria pedir-lhe se não se importava de nos trazer umas caixas delas quando viesse. É que por aqui estão esgotadas.
- Esgotadas? Porquê? – pergunta ela, já com alguma preocupação.
- Nada de preocupante. Traga três caixas, se faz favor. Espere. Quantos dias vão ficar? Três, não é? Então traga antes seis caixas. E não se preocupe que eu faço questão de pagar tudo isso.
- Mas o que é que se passa por aí?
- Não viu na televisão?
- Não. O quê?
- Não tem que se preocupar. Com as máscaras e as fogueiras que estou a fazer à volta da casa, estamos protegidos.
- Fogueiras?!! Mas estás a falar do quê!!!???? O que é que se passa???!!!!
- Já agora. Pode também trazer uns 15 litros de lixívia? Também está difícil de encontrar por aqui.
- Mas importaste de me explicar o que se passa!? Ou é mais uma das tuas estúpidas brincadeiras?!
- Não é nada de especial. Espere um pouco... – digo, enquanto grito para o ar – Amor, já chegaste? Não te esqueças de queimar o fato protector que levaste para a rua.
- A minha filha já chegou???!!! Passa-lhe o telefone! Quero falar com ela!
- Tem que esperar, ela agora foi ao banho. Sabe...com isto da gripe aviária que por aqui anda..... – digo, deixando pendurada a última frase.
- Passa-me a minha filha!!!! – grita ela, em pânico.
- Mãe, o Pai Natal existe mesmo?
- Claro que sim. - responde ela – Não é Pai?! - pergunta-me, voltando-se para mim (como se eu tivesse algo a ver, com as dúvidas da mocita).
- Claro que existe. Existe o Pai Natal, Deus, e até já ouvi dizer, que existem pessoas a comprar o meu livro. - respondi eu. Bom, aquela parte do livro, não a disse, coloquei-a agora para dar aquela imagem de desesperado (trata-se de outra estratégia, que passa por tentar chegar às vossas carteiras, através da pena) e para vos relembrar que o meu livro (à venda na FNAC, Bertrand e na Internet logo aqui ao lado) é uma excelente prenda de natal, tendo inclusive, uma cor que só fica bem em qualquer tipo de prateleira, desde as mais clássicas, até às mais modernas.
- Como é que sabes? - pergunta-me a nossa filha.
- Mas tu já te esqueces-te que eu conheço o Pai Natal? Que já lhe emprestei um GPS e que ainda o ano passado fomos à sua loja secreta? - explico-lhe.
- Sim, mas na escola dizem que isso é tudo mentira. - diz ela, com um ar triste.
- E tu achas que o pai, e especialmente a mãe, te iam mentir só para tu andares mais contente durante esta época, com a expectativa de um velho de barbas e carregado de brinquedos, bater à porta e te dar o que tu queres? - pergunto eu, ao mesmo tempo que recebo um beliscão da minha mulher.
- Então é verdade? - pergunta-me ela, ainda com um ar de dúvida.
- Sim!! Pai Natal!? Diz... - reajo eu, com o indicador no ouvido e aparentando alguma surpresa. - Pois é verdade. Então e a mulher, continua chata? (pausa) Eu por aqui estou na mesma, também não posso dizer nada pois a minha também está a ouvir.....ehehehe. Então e os filhos? Já os expulsaste de casa? (pausa) Pois está claro. Já estão com mais do que idade para acartarem pedras na mina. (pausa) O quê? Eles fizeram queixa de ti ao tribunal? Levaste com uma inspecção de surpresa? Porra pá. E agora? (pausa) Descobriram que o Rodolfo andava a fazer cópias piratas de DVDs? chiiii.... Mas não era o gajo que comandava as outras renas?
- Pai!!! O que é que se passa com o Pai Natal?! -interrompe-me a moça preocupada, enquanto a minha mulher me começa a mandar uns olhares bizarros.
- Nada de especial filha. O pai só está a fazer conversa, para ver se saca alguma coisa em relação aos teus presentes. - digo, para a sossegar. - E olha lá, mudando de assunto. - digo voltando a pôr o indicador no ouvido – Em relação às prendas aqui da minha filha. Podes-me dizer alguma coisa? (pausa) O quê?? Este ano não vais conseguir trazer nada? Porquê?
- Pai!?? Não vai haver Natal?
- Ficaste sem os duendes? Porquê? (pausa) Uma carica? Ok. Eu falo com ela. Adeus.
- Então pai? O que se passou?
- Mas tu acreditas mesmo que ele esteve a falar com o Pai Natal? - pergunta-lhe a minha mulher.
- Não sei. Mas se eu não acreditar e depois for verdade, posso ficar sem presentes. - respondeu a nossa mocita.
- Ora aí está. Acabaste de dar o primeiro passo em direcção ao ateísmo. - respondo eu, orgulhoso.
- Mas o que é que se passou? - pergunta novamente, a mocita, desesperada.
- Bom, o melhor é sentares-te. - digo-lhe com ar preocupado - O Pai Natal está com problemas com a lei, porque parece que os duendes trabalhavam de borla e que as renas tinham um negócio paralelo da falsificação de brinquedos. Para além disso, ele disse-me que o teu comportamento este ano, foi um pouco....bom...não te portaste assim muito bem....comeste muitos doces sem oferecer ao pai; levantaste-te cedo ao fim de semana; não deixas o pai fazer sestas; não ajudas o pai a tratar do gato; etc. Com tudo isto, ele diz que só te pode trazer uma carica.
- Uma carica? - responde a moça, quase com lágrimas nos olhos.
- Luis Luz!! - diz uma voz tenebrosa, num tom que me arrepiou os pêlos da nuca. Por momentos julguei ter voltado à minha infância, e que estava a ouvir a minha mãe a ralhar comigo, por...(isso são outras histórias) – Se tu puseres a moça a chorar, já sabes o que te espera. - é então que reparo que era apenas a minha mulher, com mais uma das suas ameaças.
- Sim! Pai Natal? Diz.... – digo, enquanto volto a pôr o indicador no ouvido. - Sim. Está bem. Eu digo-lhe.
- O que foi, pai?
- O Pai Natal pede desculpas. Ele enganou-se, não vais ter uma carica.
- Não? Vou ter o quê? Uma bicicleta nova?
- Não. Vais ter duas caricas e um berlinde.....
Na hora de ir para a cama:
- Porra pá! Não consegui resistir. Não tenho a culpa de ser uma pessoa fraca. - digo à minha mulher, quando ela me manda dormir, para o quarto de hóspedes.
- Então agora aguenta! - responde-me ela friamente.
- Está? Pai Natal? - digo, enquanto volto a enfiar o dedo no ouvido. - Qual era a prenda que estavas a pensar trazer para a minha mulher? Temos que falar nisso.
E não é que resultou e pude partilhar a "nossa" cama!!!!
Importante lição para o futuro: Quando uma mulher se ri, fica com a memória de curto prazo afectada.
O dinheiro que se ganha nesta casa, não tem como prioridade a compra de produtos considerados supérfluos, como um gravador de DVD ou um modesto videogravador. Por aqui, as prioridades são dadas à compra de malas e ultimamente, a carregadores de telemóvel (estes últimos desaparecem estranhamente, de dentro das diversas malas da minha mulher...bom, pensando um pouco, não é assim tão estranho, pois todos nós, homens, sabemos que as malas das nossas mulheres, são portais para outras dimensões).
Assim sendo, não temos qualquer registo da nossa passagem pelas "Tardes da Júlia".
A pessoa que possui esse tipo de produtos supérfluos (videogravador) no momento em que ia programar a gravação, apercebeu-se que não tinha qualquer cassete disponível e, infelizmente, já não fui a tempo de lhe dar a cassete do meu casamento.
Perante isto, só me resta esperar que, até à minha futura presença na TV, a venda dos meus livros aumente exponencialmente, e que assim já possa ter justificação, perante o Conselho Familiar (e todos nós sabemos de quem estou a falar) para comprar um PDA topo de gama e, talvez, um videogravador dos mais baratos.Tudo começou com um mail a perguntar se não queria ir ao programa da Júlia, respondi imediatamente que agradecia o convite, mas que já tinha um casamento de sonho (tive o cuidado de mandar uma cópia desta minha resposta para a minha mulher, para ela ver que mereço um PDA no Natal). Fiquei depois a saber que afinal, a Júlia tem mais uma série de programas, um dos quais passa durante as tardes, e era nesse que me queriam, a mim e à minha mulher, para falar sobre sexualidade saudável num casal, isto porque tinham lido o meu blog. Perguntei o que tinha o meu blog a ver com sexualidade saudável num casal, ao que a minha mulher respondeu que só por cima do seu cadáver iria falar sobre intimidades num programa da televisão. Como adoro vê-la em situações que a deixam constrangida, consegui convencê-la, após me certificar que efectivamente não se tinham enganado no blogger. A primeira bronca começou com a necessidade de fazer uma reportagem na nossa casa:
- Na nossa casa? Mas fazer o quê?- perguntou-me a minha mulher.
- Querem nos vir filmar a passear pelo jardim de mãos dadas, a olhar para os passarinhos e a dar beijos um ao outro. E também querem umas fotos do nosso casamento, do tipo daquelas em que tu estás a fingir que falas para o telefone, embora eu prefira aquela em que tu estás com aquele ar angélico com as mãos juntas e encostadas à tua face. - isto para a picar, porque mulheres com mau feitio tem um “Je ne sais pas quai” (já faltava alguma intelectualidade ao blog) que me seduz.
Infelizmente não foi possível esse tipo de filmagens, e as fotos foram escolhidas a dedo pela minha mulher.
As filmagens consistiram em nos fazer falar à parte, sobre a nossa sexualidade. Achei estranho ela ter tanta coisa para contar, pois estive à espera da minha vez mais de meia hora. Isso deixou-me bastante preocupado, principalmente quando, com alguma frequência, começava a ouvir gargalhadas histéricas da zona de filmagem. Quando chegou a minha vez, despachei a coisa em 5 minutos, pois quando se trata de sexo, sou um gajo que vai directo ao assunto e sem rodeios.
Quando se foram embora, tentei saber o motivo de tanta gargalhada:
- Então, o que é que disseste, que era só alegria?
- Nada de especial. Apenas os informei que te tinha prometido não responder a algumas perguntas, mas que estava disposta a reconsiderar, desde que eles, de vez em quando, se rissem bastante e de forma a que tu os ouvisses.
Obviamente que não acreditei nela, pois o seu sentido de humor não é assim tão mórbido, pelo menos perante estranhos. Pelo que lá fomos então para o programa, tendo eu aproveitado para levar um livro para dar à Júlia (e é sempre bom recordar, todos os estimados leitores deste blog, que estamos no Natal, época ideal para oferecer livros que ajudem os casais portugueses a serem felizes) e, sinceramente, com algum receio do que iria ouvir da parte da minha mulher. Meteram-nos numa sala à espera. Para tentar descontrair, pus-me a ler o meu fabuloso livro, o qual é realmente espectacular (NATAL! OFERECER! LIVRO! VIDA DE CASADO!) depois de ter descoberto mais um erro ortográfico, lá nos chamaram. E pronto, o resto não me lembro, tirando talvez a vaga impressão de que destoámos no conjunto. Como conclusão, tenho a dizer-vos que a Júlia, ao contrário do que dizem as más-línguas, não grita assim tanto. Quem grita que se farta é a audiência, a qual, e não pode ser coincidência, é composta unicamente por mulheres.