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Quarta-feira, 20 de Junho de 2007
O Pernudo......

No meu tempo de puto, os coelhos tinham apenas um papel: o de servirem de alimento. Cheguei a ser responsável pela criação familiar de coelhos, ficando fascinado pelo seu ciclo de vida: Começava por um estranho sapateado entre o macho e a fêmea, seguia-se a construção da “cama”, com o próprio pêlo da progenitora, depois o nascimento de uns desprotegidos e estranhos bichos cor de rosa e mais tarde, o seu abrir dos olhos e as primeiras saídas do ninho. Era nesta fase em que começavam, de uma forma trôpega, a descobrir o mundo (com aquele seu aspecto querido e fofinho), que eu lhes atribuía os seus respectivos nomes: o Cozido; o Grelhado; o Arroz; o Ensopado; o Delicioso; etc.. Depois vinha o inevitável crescimento, e quando chegavam perto dos dois quilos, o seu destino estava traçado.  Garanto-vos que inúmeras vezes escondi, à mesa, a imensa mágoa que me provocava ver ali, no meu prato, inertes, aqueles a quem eu dei muito de mim. Sentia que algo estava errado. Que os seus destinos não estavam a ser cumpridos. Cheguei, algumas vezes, a suplicar à minha mãe que lhes desse o destino devido, ou seja, a não cozer o Grelhado, ou a não grelhar o Arroz. Afinal fui eu quem lhes atribuiu os nomes!! Fui eu que lhes atribui o destino!!! Eu para eles, era Deus!! Deus!!! Porra!

Isto chateava-me um pouco, mas a minha mãe, com a sua santa compreensão, mostrava-me que ser o Deus dos coelhos era algo que eu não podia levar demasiado a sério, pois caso contrário, poderia, no futuro, ficar com determinados traumas (os quais seriam causados pela utilização de algo mais doloroso, do que a sua mão, para me dar as nalgadas). Assim, e também porque a minha mãe era uma excelente cozinheira, acabava sempre por sentir que afinal, o Grelhado também era igualmente bom cozido e vice‑versa.

Houve no entanto, um coelho que me marcou para sempre. Nasceu, tal como todos os outros, cor de rosa e totalmente desprotegido. Mas depressa abriu os olhos para o mundo e adquiriu uma bonita pelagem malhada. Era lindo. Rapidamente passou a ser o meu preferido, aquele a quem eu dava pequenas guloseimas, como pequenos pedaços de cenoura, ou de batata crua. Crescia a um ritmo acelerado. Mas um dia veio a fatalidade…Um dia, vejo-o afastado dos outros, num estado de semi inconsciência, com a barriga totalmente inchada. Entrei em pânico….o meu querido coelho…ainda não estava pronto para morrer, faltava-lhe ainda um quilo…o meu pobre Delicioso!!....o que fazer??? Felizmente, na altura existiam séries educativas na TV, nomeadamente a série Britânica “Veterinário de Província”, nela tinha visto um rebanho de ovelhas a serem salvas do excesso de metano (que lhes tinha feito inchar os estômagos) através do espetar profundo de agulhas, as quais, através dos buracos que faziam, ajudaram a libertar o metano dos seus estômagos. Porque respeito a sensibilidade das pessoas que me lêem, não vou aqui descrever as minhas inúteis tentativas para salvar o Delicioso. Posso apenas dizer que o pobre animal morreu em paz, mas com um aspecto de boneco Vodu.

Bom, voltando ao presente. A minha sogra resolveu dar, sem que a minha opinião fosse consultada, um coelho de estimação à nossa filha. Um Coelho de Estimação!!!!

- Mas que merda é esta? – pergunto eu.

- Não fui eu. – diz a nossa filha após escrever merda (correctamente) no quadro do não gostei.

- Olha lá. O cabrão do coelho não sabe cagar no sítio e eu é que tenho que limpar? – digo à minha mulher.

- Sim. – responde a gaja que achou que fazia bem, à nossa filha, ter mais um animal de estimação, como forma de ter mais responsabilidades, tais como…… sei lá, lembrar o pai para limpar a merda que o Coelho faz; lembrar o pai para tapar os buracos que o coelho faz no nosso jardim; lembrar o pai que não deve bater no coelho por ele andar a comer as alfaces, que tanto trabalho me deram a plantar e a cuidar; lembrar ao pai que vê-lo a pesar o coelho a faz chorar, por se lembrar do que o pai disse sobre o papel que os coelhos têm na vida dos humanos; etc..

- Pai, queres que eu te ajude? – pergunta a nossa filha, após regressar do quadro do não gostei.

- Não filha, deixa. – disse eu, enquanto fui buscar o esfregão. Pelo caminho aproveitei e emendei os erros do quadro do não gostei, deixando as respectivas notas: “É CAGAR não é CAVAR. É CABRÃO não é CABÃO. MERDA está muito bem escrito.”

E agora existe em mim um grande dilema moral: será que para a minha filha, o coelho deverá morrer por “acidente” ou “causas naturais”, ou devo ser o pai honesto, que tenho tentado ser, e assumir, perante ela, que o lindo nome que dei ao coelho (“Pernudo”) tem um segundo significado e com ele, um destino bem definido?

publicado por Luis às 01:28
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35 comentários:
De Little Miss Sunshine a 25 de Junho de 2007 às 14:08
Sou vegetariana... Isso já diz tudo... Não como coelho, vaca, porco, avestruz, cavalo, etc, etc... Coelhos, para mim, só de estimação. E mais! Nem todos os coelhos têm a vida contada. Eu salvei um de morte certa que me viveu mais de seis anos. Além de que, muito sinceramente, lá porque já se matavam à paulada os coelhos de há um século atrás, não quer dizer que nos dias que correm isso esteja certo, ou que se deva fazer.

A piccolina pesava bem mais de três Kg. E sim, era a minha melhor amiga depois do meu cão, o qual, aliás, brincava com ela sem malícia. Assim se vê que no Mundo animal também há excepções à regra... e eu, orgulhosamente sou uma delas. Coelhos há muitos, é verdade... Mas para isso é que servem as raposas.
De Alex a 25 de Junho de 2007 às 18:35
Bem, eu a bem dizer, tou-me nas tintas prós coelhos, se são, lindos, peludos, essas m***as... que eles são bons à caçador, são! E de ensopado, não te digo nada!
Agora, a tua filha é que é capaz de não gostar muito... nem à caçador nem grelhado, nem frito... é mesmo ali inteirinho e vivinho da silva! Pa dar miminhos...
Tem paciência, como pai que se preza, limpa lá a m***a do pernudo que a chavala agradece! E tem cuidado não vá ela ler isto! Beijo, caí aqui de pára-quedas e adorei! Vou de certeza continuar a ler-te!
De Joana a 25 de Junho de 2007 às 18:38
destaque no sapo outra vez?

clap clap

Parabéns!
De Rute a 26 de Junho de 2007 às 00:13
Lolo
Eu também tenho uma coelhinha de estimação...deixe lá a miuda ficar com ele sem nenhuma fatalidade...são uns amores :)
******
De Joana Guerra a 20 de Agosto de 2007 às 16:56
Ó Casado, deixa lá o "Pernudo" em paz!!! A tua mulher tem razão, faz bem às crianças terem um animal de estimação, e ias causar um desgosto enorme à pequena se desses sumiço ao bicho. Acho que a felicidade da tua filha vale mais do que um coelho na panela, n achas?

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